quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Capítulo 13 - DP

       Amanhã tenho prova de DP e ainda estou acordada. Não, não estou estudando. Estou perdendo meu tempo no facebook, mas não me preparando para a prova de amanhã. Engraçado como nós somos: Quando a disciplina é super difícil estudamos noites insones, reclamamos, choramos, renunciamos veemente o lazer e o descanso, mas fazemos de tudo para nos sairmos bem. Quando o assunto parece ser pouco menos relevante, tornamo-nos um pouco arrogantes e deixamos de lado.
       No fundo, acho que somos todos meio masoquistas. Afinal, valorizamos os professores que mais nos ignoram, damos atenção especial ao conteúdo que mais nos castiga e futuramente procuraremos o número de empregos necessários para obtermos o máximo de dinheiro possível. Muito triste, não? E pior ainda que a prova de DP tenha me levado a tais conclusões! Ah, mas deixando as piadinhas de lado, é isso mesmo, a disciplina é Desenvlvimento Pessoal e tem exatamente esse papel de nos levar a refletir sobre a construção do nosso "eu" profissional.
        Mesmo quem não tem essa disciplina, pelo menos não com esse nome, sabe que há aqueles assuntos aparentemente bobos e indignos de nossa atenção. Entretanto, se você parar um pouco e refletir, verá que o blá-blá-blá do professor não é em vão. Alguma coisa você aprende, nem que seja a criticar a existência da disciplina na grade curricular.
        Por isso, fazendo jus ao que eu mesma escrevi e depreendi, me despeço agora dos meus silenciosos leitores e vou ler o conteúdo da prova de amanhã, que parece bobo e fácil, mas assim como anatomia, fisiologia, histologia e outras "ias", merecem meu respeito e dedicação!

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Capítulo 12 - E agora, doutor?

     - Eu tou doente! Eu vou morrer, tu não entendeu ainda?
       Essa foi a frase que me pegou ontem, de manhã, na calçada do hospital universitário. Uma mulher desvairada gritava isso para uma outra mulher, provavelmente sua parente que acompanhava a consulta. A frase ecoou na minha cabeça o resto do dia e eu me pergunto se algum dia vou aprender a lidar com isso. Ou será que a faculdade irá me enrijecer e daqui a alguns anos nem vou me importar com esse tipo de situação? Espero que não, pois mesmo sentindo o coração dilacerado diante de uma cena dessas, ainda é preferível essa minha pequena dor à imensa angústia de um paciente que ouve alguém frio e inerte dizer que não há mais jeito.
        Mas não desejar tornar-me fria é aceitar um martírio que me seguirá durante toda a vida? Preciso mesmo desse escudo para exercer a profissão que escolhi? Penso que o pior martírio é ser vazio e incapaz de transmitir qualquer coisa de bom a alguém. De forma alguma quero abraçar e chorar com um paciente para lamentar seu estado, mas desejo tornar-me uma fonte de segurança e serenidade, para que ele saiba que farei tudo que estiver ao meu alcance para ajudá-lo.
       Então o grande desafio é aprender a administrar as emoções sem perder a sensibilidade. Parece que achei o ponto, mas quanta dificuldade há nisso! Entretanto, acredito que registrando isso e internalizando a cada dia, talvez fique muito mais difícil esquecer a missão. Afinal, é possível sim fazer a diferença e tornar o seu mundo um lugar melhor para viver. Cada pessoa tem o seu propósito de vida e de alguma forma incrível nos encaixamos em diferentes lugares, então aquela velha história de "faça a sua parte" continua valendo. E se a minha parte, enquanto estudante, é preparar-me intelectualmente e psicologicamente para ajudar pessoas, é isso o que eu vou fazer.


"Um amigo chamou-me para aliviar sua dor. Guardei a minha no bolso e fui."
Clarice Lispector

Capítulo 11 - Aborto e Ponto de Vista

        Nossa, um título polêmico, começamos bem o post! É óbvio que eu sabia que esse tema surgiria no meio desse módulo de Gênese e Desenvolvimento, mas não imaginava que viesse com tanta força. A questão é que a coordenadora do módulo é radicalmente contra o aborto e quer impor isso a todos os alunos. Se ela ao menos embasasse seus argumentos na ciência, vá lá, mas ela quer empurrar goela abaixo e pronto.
       Aos que são contra o aborto, calma, não estou defendendo essa prática de modo algum. Pelo contrário, sou contra o aborto seja qual fase da gestação esteja ocorrendo, pois acredito sim que a vida começa na fecundação. Gametas isolados são apenas células, mas quando se unem e misturam seu material genético, tornam-se em potencial para geração de uma vida. Por isso, para mim, interromper esse processo é sim interromper a vida. Então, se sou totalmente contra o aborto, porque me incomoda a atitude da professora?
      Vocês repararam que acabei de explicar POR QUE considero o aborto uma prática ofensiva? Pois é, a professora nem pára para pensar que todo semestre ela lida com dezenas de pessoas que pensam e que não aceitam facilmente seu ponto de vista. Se ela se detivesse em explicar sua posição, talvez ela até convencesse algumas pessoas que antes não pensavam como ela. Mas ao impor sua opinião sem respeitar os demais, ela perde o respeito de muitos.
      -Vocês fizeram vestibular pra cuidar de gente ou pra matar gente?
        Essa frase me chocou profundamente, pois pressionou terrivelmente e deixou um clima pesado na sala. Oferecer meio ponto aos que participaram da "Marcha pela vida" também. Sim, eu ficaria feliz se as pessoas parassem de banalizar a vida, o  ato sexual e as crianças, mas não posso colocá-las contra a parede ou suborná-las com alguns escores na média. Todos têm o direito de permanecer ou mudar sua opinião, mas o processo todo depende do que se vai ouvir e das experiências que se vão viver. Nossa professora fala muito de dignidade de vida, mas esquece que isso também engloba o direito de criticar posições e tirar suas próprias conclusões. Dignidade de vida é também poder se expressar livremente e não sofrer retaliação por isso.
       Então para sintetizar, enfatizo:
Sou totalmente contra o aborto. 
Respeito opiniões contrárias e desejo que respeitem a minha.
Infelizmente os universitários ainda são visto por alguns como meras esponjas que apenas têm de absorver informação e não possuem nada para compartilhar. 
Diga sim à vida, mas porque você quer e não porque vai ganhar pontuação extra. 
Exija sua liberdade de se expressar e transforme sua Universidade em um lugar mais democrático.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Capítulo 10 - O Retorno

          Queridos leitores, sei que sumi, mas também não recebi nenhuma reclamação quanto ao sumiço. Creio que me sinto tão decepcionada quanto Jânio Quadros quando renunciou a presidência da república. O coitado saiu "por forças maiores" e ficou esperando eternamente para voltar nos braços do povo. Pois então, não esperei vocês reivindicarem minha volta e vim por meus próprios braços e vontade.
          O motivo da minha ausência foi um problema de internet, além de um módulo muito, muito chato de Biologia Celular e Molecular. Mas a nossa vida é isso mesmo, nem tudo são flores nem só espinhos. Mesmo dentro do módulo chato tivemos aulas fantásticas de Genética Clínica, nosso primeiro contato com o Hospital Universitário e mesmo entre as aulas de Bioquímica houveram algumas bem legais. O fato é que não obstante as aulas boas, cheguei ao fim do módulo bem cansada e louca para me ver livre! Mas, como até postei no facebook, módulo novo - vida nova. Aliás, literalmente VIDA NOVA! Vamos que vamos com Embriologia e algumas polêmicas que comentarei no próximo post só pra não misturar com o retorno aqui!
          Mas nas últimas duas semanas, apesar do cansaço, inúmeros acontecimentos me levaram a uma conclusão que compartilho aqui com vocês: Todo curso exige muito de nós, principalmente os integrais que parecem nos exaurir. Mesmo assim, não deixemos de fazer o que gostamos nem de cultivar escapes e hobbys. A faculdade deve ser um meio de alcançar nossa realização e não nossa morte em vida. Somos flexíveis, somos adaptáveis, não nos deixemos consumir!

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Capítulo 9

        Meus queridos leitores anônimos que nunca comentam nada de nada nesse blog, ontem vocês iam me perdendo pra sempre! Quase tive minha jornada acadêmica interrompida prematuramente e bestamente. Não entendeu nada? Explico.
       Ontem, fomos à tarde visitar o Projeto 4 Varas, no Pirambu, um projeto bem legal de Terapia Comunitária. Eu quase reaxei, mas meu olho estava no relógio porque tinha de estar no laboratório às 16h. Deixei até um bilhete explicando que talvez chegaria um pouco atrasada e que fossem iniciando sem mim, mas a responsabilidade do experimento era minha e eu fiquei muito preocupada. Tudo maravilhosamente, a terapia encerra e quando reparo que às 15:56 eu ainda estou no 4 varas quando já deveria estar na UFC meu coração sobe até a boca. Fiquei dando uma de chata, apressando todo mundo até que finalmente saímos de lá e estacionamos na Costa Mendes exatamente às 16:42h. Como estava mega apressada, fui atravessando a rua do jeito que dava e nessa marmota escuto uma buzina beem alta e o calor do pneu da moto a milímetros de mim!
      Nem pensei em nada, saí correndoo de medo, vergonha de alguém ter visto a cena, susto... E muitos minutos depois foi que recuperei o fôlego e eu me pergunto: Porque eu não esperei 3 minutinhos antes de atravessar essa bendita avenida? 3 minutos não colocariam o projeto a perder, até porque haviam outras pessoas no laboratório que já estavam iniciando o experimento quando cheguei. E se eu tivesse me machucado seriamente? Já imaginou quantos transtornos? Principalmente agora que as aulas estão iniciando? Que situação... Agora nem que os ratos peguem fogo eu saio correndo sem pensar!

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Capítulo 8

        Minha geeeeeeeeeeeeeeeeeeente, Semana de Recepção dos Calouros na FAMED! Mesmo já conhecendo isso aqui como a palma da minha mão, agora é oficial, do jeitinho que eu sempre quis. Meu Deus! Estudar com 79 pessoas não vai ser fácil! Quando será que vou decorar o nome de todo mundo? Será que vou me dar bem com todos? Tchã-tchã-tchã.... Material para os próximos capítulos...
        Aqui no laboratório as coisas estão tranquilas. Depois de alguns dias de treinamento com os aspirantes a ICs(futuros ECs), tenho de marcar uma reunião para ver quem fica e quem sai, quem permanece nesse projeto e quem vai ser remanejado para outros. Só sei que um eu faço questão de "demitir": o que se atreveu a dançar É O TCHÃ em público nas apresentações de hoje. Esse tá mais que fora! kkkkkkkkk Quê que há? Isso é um laboratório de respeito! Já passei aqui depois do almoço para inspecionar os ratinhos e ver se estava tudo bem. Todos estão limpinhos, saudáveis e alimentados. Amém.
         Enfim, vou voltar aqui pra minha Semana, vou curtir que agora eu sou Bichete da Medicina com muito orgulho e amor!

domingo, 16 de setembro de 2012

Capítulo 7

       Acabei de chegar do laboratório. "De novo, Larissa? Em pleno domingo?" Sim, de novo e novamente por muitos domingos ainda. Hoje o que me surpreendeu, divertiu, mas também me deu pena foi a cara de sono do Chefinho pela manhã. Havíamos combinado de nos encontramos ele, Elana e eu para operarmos os ratinhos do grupo 2. Cheguei um pouquiiiinho atrasada, como sempre, e Elana já tinha organizado quase tudo, o Chefinho estava tomando café e começamos o procedimento.
        Papo vai, papo vem, pesa os bichinhos, anestesia, fixa, corta, limpa, fura e... Cadê o Chefe? Coitadinho: Dormindo em cima da mesa do computador! Ficamos morrendo de pena e deixamos ele descansar. Aí o bichinho da maldade fica coçando até nos iluminar com uma ideia: Tirar uma foto dele naquela situação. Pé ante pé entrei na sala pra pegar o celular. Consigo, coloco na câmera, entro na sala de novo bem devagarinho, tiro a foto e um CLIC super alto ecoa na sala! Droga, tinha esquecido de tirar o som da câmera! O pobre do chefinho acorda tão zonzo que acho que ele nem percebeu que despertou sendo fotografado. Além da adrenalina de ter saído correndo, ainda fiquei com dó de ter acordado ele. O coitado veio com mil desculpas por naõ estar ajudando e a gente disse que ele podia ir pra casa descansar.
         O que eu vejo nisso tudo, fora a situação constrangedora, é que a cobrança que temos quando alunos é um preparo para a cobrança a que estaremos sujeitos quando profissionais. Se é estressante para nós, imagine parao Chefinho que dá plantões em urgência/emergência, leciona na Universidade e tem ainda de se dedicar ao doutorado. Conclusão: Não está fácil pra ninguém. Uma vez que entramos nessa maratona, temos de aprender a correr cada vez mais rápido.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Capítulo 6

        Aaaaaahhhhh, que felicidade! O projeto no laboratório está caminhando bem, estamos superando os probleminahs que surgiram, inclusive da falta de ICs! Consegui arrebanhar 10 candidatos para nos ajudar na empreitada científica. Claro que não posso colocar esse povo todo dentro do projeto, mas vamos conseguir uma boa ajuda.
      Amanhã reunião com esse pessoal, expor a situação, ver quem arrega e selecionar o grupo. Na próxima semana um intensivo de treinamentos e a chance de fazer muitas maldades com os novatos! Muahuahuahuahua... Brincadeirinha! Estou torcendo pra que esses meninos venham com vontade e se apaixonem pelo projeto, isso vai otimizar bastante as coisas!
       Desde agora, dedinhos cruzados e muitas preces para que Deus ilumine a nós todos! ;D

sábado, 8 de setembro de 2012

Capítulo 5 (Uma coisa séria, hoje)

      Desde quinta eu estou participando do XVIII Encontro Regional dos Estudantes de Medicina. Tirando alguns probleminhas como a desorganização do evento, minha timidez absurda e o fato de eu estar sozinha lá, tem sido muito enriquecedor, embora revoltante.
       Não me considerava, até quinta, uma pessoa alienada dos problemas referentes a educação e à saúde, mas o EREM veio como um raio na minha cabeça! Palestras recheadas de esclarecimentos políticos e muita indignação me fizeram refletir sobre o caos que estamos vivendo, acreditando que está tudo bem. Uma palavra era constantemente repetida nos debates: PRECARIZAÇÃO. O público tem sido precarizado, sucateado, para acreditarmos que o privado é melhor. Falou-se muito também sobre um "SUS público e estatal". Por um momento podemos pensar: "Oxente, e o que é do Estado não é público?" Atualmente, não. E esse é apenas um dos muitos conceitos que precisam ser redefinidos. Do jeito que o trem anda, o limite entre público e particular já não existe, nosso SUS está sendo entregue a empresas bem diante dos nossos olhos.
         A constituição já dizia que a rede particular poderia complementar a pública de forma não lucrativa. Só que esse é o maior paradoxo do mundo! Como bem discutimos no Encontro, uma empresa privada não faz absolutamente nada sem lucros. Isso é totalmente contra o princípio capitalista. Então eu me pergunto: O que essas empresas  ganham para administrar o que é nosso? Porque o governo paga a elas ao invés de usar esse dinheiro para gerir o SUS? Engraçado que eles colocam nomes bonitos como "Organização Social", "Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares"... Tudo balela! Não passa de um grande mercado onde o que está em jogo é a saúde da população e no nosso caso, universitários, nossa aprendizagem!
         Estamos ficando sem campo de estágio, pois se não pagamos não temos direito a aprender. E onde está o "a educação é direito de todos"? Parece que está faltando um pedacinho: "educação é direito de todos que pagam". Tenho a impressão de que tudo que foi conquistado no passado está sendo roubado de nós. E vamos deixar que isso aconteça? O descaso é tão grande da parte da população e dos próprios estudantes, que participamos do processo passivamente, "É só isso, não tem jeito, acabou. Boa sorte"!
           Vamos acordar, gente, vamos reagir! Do contrário, qualquer dia, antes que percebamos, estaremos imersos em uma nova ditadura, sem vez e sem voz!
            Perguntinha boba: Domingo é dia de que? Praia? Solzão? Almoçar com família/amigos? Nada disso! Universitário tem que estudar pra prova, preparar seminário e quando está em greve tem que ir ao laboratório trabalhar! Pois é, meus caros, domingão e nós, reles ECs, operando ratinhos! Até almoço a gente levou de casa pra não perder tempo indo atrás de restaurante.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Capítulo 4 - Parte 2 (Sobre platonismo)

            Só existe uma coisa pior que encontrar  sua ex-paixão platônica desfilando na faculdade: ter amigos que enchem sua paciência por causa disso. E não adianta dizer que não tem nada a ver, eles ficam te acusando de estar vermelha, ou de chegar "feliz demais" no laboratório. Mas a minha sorte é tamanha que depois de séculos sem ver Platão, ele me aparece no meu primeiro dia de estágio. E continua aparecendo vez ou outra, e eu nem posso comentar com ninguém para depois não dizerem que eu ainda estou apaixonada.
          Já falei inúmeras vezes que meu tratamento de desapaixonamento foi eficaz, mas querem sempre encontrar sinais em mim de encantamento. Pois vacilaram, bando de amigos da onça: Platão pertence ao meu ingênuo passado, estou agora total e somente comprometida com a ciência! Hahahahahha ;D

Capítulo 4 - Parte 1 (Sobre dizer "não")

          Dizer não é extremamente difícil para mim, mas tenho me forçado a fazer isso nos últimos dias. Já passei por maus bocados, já deixei de fazer o que queria para agradar algumas pessoas. E porque estou falando isso? Poque hoje, pela primeira vez, disse não ao Chefinho.E olha que já fiz muitas coisas quase impossíveis para não queimar meu filme!
           Hoje, comentando isso com o pessoal, uma amiga riu lembrando do dia em que enfrentei um enxame de abelhas para procurar um rato pro Chefinho operar. Foi assim: Ele pediu para procurarmos um animal mais gordinho no departamento de Fisiologia, mas quando eu e essa amiga chegamos, o corredor que dava acesso à sala estava interditado de abelhas. Como essa amiga, a Natassya, tem pavor de insetos (pelo menos foi o que entendi da situação), ela recusou-se terminantemente a cruzar o caminho do enxame. Realmente eram muitas, mas eu não sabia o que seria pior: a fúria das abelhas ou a chateação do Chefinho por não termos ido buscar o rato.
         Entre a cruz e a espada, com a Natassya praticamente me arrastando de lá, bati na porta de um outro laboratório para perguntar se tinha outro acesso, uma porta ou sei lá, mas não havia. A professora que me atendeu deu a dica, se realmente fosse necessário passar, que fizéssemos o mínimo de movimento possível. Era mesmo necessário, então fiz do meu jaleco uma capa e atravessei em câmera lenta. Momentos de tensão, mas consegui pegar um animal e chegar sã e salva ao nosso laboratório. E o que você acha que  ganhei por esse ato de dedicação e coragem? Uma salva de palmas? Congratulações pelo meu heroísmo? Bem, confesso que no tal dia não ganhei nada, mas hoje ganho muitas gargalhadas e consigo divertir meus colegas.
         Mesmo depois disso, hoje fiquei pensando seriamente antes de negar um pedido do Chefinho. Já havíamos combinado que iríamos fazer um mutirão de estereotaxias no domingo e ele, com seu sotaquezinho cativante e fala cantada, pediu, com toda sua simpatia caririense, para fazermos isso no sábado. O problema é que todos já haviam marcado compromissos no sábado (e eu, como filha de Deus também, marquei um clubezinho), mas ainda fiquei zonza tendo de fazer minha escolha. A decisão veio quando Natassya começou a contar e rir do caso das abelhas. Nem pensei mais, bati o martelo: Sábado não venho! Liguei para o Chefe e disse o que havíamos decidido, ficaria tudo como antes. Que alívio me permitir dizer um não. Estou aprendendo...

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Capítulo 3

               Ontem fiquei sabendo de uma novidade não muito agradável: Vou voltar a estudar toda madrugada. Assim que a greve acabar e as aulas começarem minha nova rotina será bem parecida com a de antigamente. Em 2010 era assim: Aulas do 3º ano (manhã) + Aulas Específicas (Tarde) + Cursinho (Noite) + Estudos individuais (Madrugada, feriados e fins de semana). Em 2011 ficou assim: Curso de Farmácia (Manhã e Tarde) + Estágo em laboratório (Turnos livres) + Cursinho (Noite) + Estudos individuais (Madrugada, feriados e fins de semana).
               Esse ano tinha ficado assim: Curso de Medicina (Manhã e Tarde) + Atividades extraclasse (Turnos livres) + Estudos individuais (Noite, eventualmente fins de semana e feriados) + Lazer e Sono (Madrugada, feriados e fins de semana). Estava perfeito! Mas depois da reunião de ontem, em que reorganizamos os novos horários para os experimentos do doutorado do Chefinho, parei para montar os meus horários e ficou assim: Curso de Medicina (Manhã e Tarde) + Atividades extraclasse (Turnos livres) + Estágio no laboratório (Noite, sim noite, acredite!) + Estudos Individuais e construção de um artigo sobre EEG (Madrugada, feriados e fins de semana).
                Depois desse horário maravilhoso, você deve concordar com uma amiga do laboratório: Não somos ICs, somos ECs - ESCRAVOS CIENTÍFICOS! Eu só queria aprveitar meu tempo da forma mais produtiva possível, mas pelo visto estou aproveitando de forma impossível.  Será que um dia todos os ECs serão ricos o suficiente para compensar nossa privação de sono e de lazer? Quem sabe, né? Enquanto nossa fama e glória não chega é só "Lêrê-Lêrê-Lêrê-Lêrê-Lêrê..."
                Hum... Acabo de lembrar de uma coisinha das minhas aulinhas de História. Lembram como se chamava o expansionismo das viagens marítimas sobre as Américas? Colonialismo - Busca de metal e especiarias. Qual a desculpa? Expandir a fé católica. Lembram como se chamava o expansionismo sobre África e Ásia alguns anos depois? Neocolonalismo - Busca de novos mercados consumidores e mão-de-obra barata. Qual a desculpa? Levar a civilização e o progresso, o "fardo do homem branco". Então agora surge o Colonialismo Científico - Arrebanhamento de ECs e exploração de trabalho inocente. E a desculpa? Promessas de publicações, experiências lindas e pós-graduação. Fazer o que? Tudo em nome da Ciência! E para ser franca, acho que acabamos nos viciando (ou gostando) nessa vida. Dá a sensação de sermos úteis e participantes de um algo maior, de uma missão.
                   Olha só o meu discurso de IC (ou EC, sei lá...)! Não é que ficou bonitinho?

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Capítulo 2


Como eu tenho muita sorte, comecei a tão sonhada faculdade no meio de uma greve. Já estava há dias imersa em puro tédio quando um telefonema me salva. Era a Elana, uma amiga desde a 6ª série, companheira de Farmácia (cursei um ano ainda) e de cursinho, me convidando para me engajar em um projeto de doutorado do laboratório de neuropsicofarmacologia. Eu nem perguntei direito o que era, mas topei de cara.
O que me impressionou profundamente, à primeira vista, foram os ratos brancos utilizados nos experimentos. Achava eles tão fofos! Sempre tive muito carinho por animais e meu sonho de criança era ter um hamster, coisa impossível porque minha irmã tem fobia de roedores e minha mãe simplesmente não os suporta. Então, nos meus primeiros dias de laboratório, não lidei bem com a questão de sacrificar os animais depois do experimento. Pra falar a verdade, ainda não lido, sou a favor da vida. Total. Por isso, salvei um ratinho que já havia passado pelo experimento e que ia ser sacrificado. Trouxe para casa, tratei o ferimento que ele tinha na cabeça por causa da cirurgia e lhe pus o nome de Luís Fernando (Lulu, para os íntimos).
A chegada do Luís aqui em casa não foi das melhores. Minha irmã começou a chorar e minha mãe a gritar, mas bati o pé no chão e o ratinho está comigo há mais de um mês. Não posso dizer que minha vida com Luís Fernando seja perfeita, de vez em quando minha mãe se irrita com as bagunças dele ou com nossos momentos de intimidade, quando me reporto a ele com mais carinho. E se eu chamo ele de “meu filho” aí sim que a coisa pega! Minha irmã já não faz objeções; não posso dizer que ela adora e já brinca com ele, mas ela não fica reclamando e muito menos chorando.
 Fora meus probleminhas domésticos, ainda tenho de ouvir piadinhas no laboratório. Quando chega um IC (aluno de iniciação científica) novo, alguém já corre pra contar que eu além de gostar dos ratos ainda adoto. O Chefinho ( vamos chamá-lo assim, talvez em outros episódios eu diga o nome dele), sempre fica dizendo, quando precisamos sacrificar animais, que eu posso levá-los para casa. E quando as fêmeas têm filhotes, como aconteceu nesses dias? Ele pergunta se não quero ficar com todos! Se eu pudesse, traria mesmo! São filhotinhos fofos, brancos e gordinhos. Mas antes que vocês achem que eu sou louca, devo dizer que sei muito bem das conseqüências de iniciar uma fazenda de ratos. Por isso, não se preocupem, ainda quero continuar morando na minha casa e preferencialmente em paz com o restante da minha família! E quando for dia de matança... “Fecho os olhos pra não ver passar o tempo...”

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Capítulo 1


Pensei em tantas coisas para escrever nesse primeiro capítulo... Pensei em falar sobre vestibulares, o primeiro ano em outro curso, o semestre que cursei em outra faculdade... Mas na verdade, sinto que o correto é começar a registrar de agora, quando realmente estou no curso e na instituição que sempre sonhei e onde permanecerei pelos próximos seis anos. Então, vamos começar do princípio: Prazer, meu nome é Larissa, tenho 18 anos, curso Medicina na UFC e todas as crônicas daqui são verdadeiras, são minhas aventuras, minhas experiências.
Independente do curso, quando passamos nos vestibulares da vida o céu amanhece mais azul, as rosas mais vermelhas e blá, blá, blá. Toda a família promove você a orgulho, seus amigos comemoram e aquelas pessoinhas que te ignoravam, não davam nada por você ou simplesmente te odiavam, começam a dizer que sempre torceram por sua aprovação. Enfim, eu já passei por isso e você com certeza já passou ou vai passar. O que quero dizer é que no nosso mundo tornamo-nos importantes, recebemos novos olhares, as pessoas passam a acreditar que seremos gente.
O problema é que não paramos para pensar que somos a borboleta saindo do casulo apenas no nosso mundo. Para o resto do mundo real, e principalmente para os nossos novos superiores, as borboletas do mundo, não passamos de lagartinhas feias e desengonçadas. E como eu sei disso? Eu senti isso na pele e há pouquíssimo tempo. No começo desse mês, minha mãe passou por uma cirurgia vascular nas duas pernas. Para deixar bem claro, minha mãe realmente me vê como uma borboleta saindo do casulo e não imagina que outras pessoas me vejam como uma lagartinha. Prosseguindo, como já havia cursado um semestre de Medicina no campus da UFC de Barbalha, achei que já tinha maturidade suficiente para aceitar a sugestão da minha mãe e pedir para acompanhar a cirurgia dela.
Primeiro problema a resolver: arranjar a autorização pra assistir ao procedimento. Subi junto com minha mãe para o centro cirúrgico e quando fui barrada na entrada pedi para falar com a enfermeira chefe. Enquanto ela chegava, tentei ensaiar expressões para falar com ela. Pensei em fazer uma pose bem séria, para parecer responsável e experiente. Mas pensei que ela poderia confundir minha seriedade com esnobismo. Pensei então em parecer gentil e amável, mas ela poderia confundir minha meiguice com bajulação. E antes que eu decidisse que máscara usaria, uma “simpática” enfermeira veio me atender.
-O que você deseja?
-Bom dia. Minha mãe acabou de entrar no centro cirúrgico para ser operada pelo Dr. X. Eu gostaria muito que a senhora perguntasse se o doutor autoriza que eu acompanhe a cirurgia, pois sou estudante de Medicina.- eu juro que falei “estudante de Medicina” com a maior humildade possível.
A enfermeira me lançou um olhar desencorajador e disse:
-Olha, neste hospital temos políticas severas para essa questão de estudantes acompanharem cirurgias. Basicamente, três pessoas devem concordar com sua entrada: o médico responsável pelo procedimento, o anestesista e eu.
-Me informaram que o Dr. X é muito compreensivo e acho que o anestesista não vai se opor. E quanto a senhora...?
                A enfermeira me olhou com desprezo e lançou a terrível pergunta:
-Em que semestre você está?
                Eu tinha que contar a ela toda a confusão que foi minha vida até chegar aqui para que ela entendesse porque vou ter que fazer novamente o 1º semestre. Achei melhor não torrar a paciência dela e disse algo impreciso.
-Vou para o 2º. – “Um dia”, pensei com uma ponta de remorso pela mentirinha.
-Nããããooo.... Você ainda está muito no início do curso, vai atrapalhar toda a dinâmica do centro. Deixe para a próxima, certo?
                Não, não tinha nada certo. Pensei, por um instante, em contar como estava ganhando experiência em cirurgias de ratinhos no laboratório onde matava a ociosidade da greve (cenas dos próximos capítulos), mas com certeza ela ia levar muito a mal minha comparação entre o centro cirúrgico do hospital e a bancada da neuropsicofarmacologia onde eu treinava estereotaxias, operando ratinhos sobre toalhas de papel. Melhor não usar esse argumento.
-Okay. –Disse tristemente, fazendo uma cara de sofrimento para ver se a comovia. Nada. Acho até que por dentro ela ria da minha insignificante posição de aluna do 1º semestre comparada a ela, enfermeira chefe do centro cirúrgico de um grande hospital.
Desse episódio tirei uma valiosa lição: Minha mãe, dentro da sala de cirurgia, lamentava que sua genial e vocacionada filhinha não tivesse conseguido autorização para assistir ao procedimento, enquanto a enfermeira se congratulava por não ter deixado mais um estudante inexperiente macular o santuário cirúrgico com sua presença boba e indesejada. Ou seja: por enquanto, borboletinha só para minha mãe e companhia. Para quem realmente já alçou vôo na vida, uma lagartinha metida.