Pensei em tantas coisas para
escrever nesse primeiro capítulo... Pensei em falar sobre vestibulares, o
primeiro ano em outro curso, o semestre que cursei em outra faculdade... Mas na
verdade, sinto que o correto é começar a registrar de agora, quando realmente
estou no curso e na instituição que sempre sonhei e onde permanecerei pelos
próximos seis anos. Então, vamos começar do princípio: Prazer, meu nome é
Larissa, tenho 18 anos, curso Medicina na UFC e todas as crônicas daqui são
verdadeiras, são minhas aventuras, minhas experiências.
Independente do curso, quando
passamos nos vestibulares da vida o céu amanhece mais azul, as rosas mais
vermelhas e blá, blá, blá. Toda a família promove você a orgulho, seus amigos
comemoram e aquelas pessoinhas que te ignoravam, não davam nada por você ou
simplesmente te odiavam, começam a dizer que sempre torceram por sua aprovação.
Enfim, eu já passei por isso e você com certeza já passou ou vai passar. O que
quero dizer é que no nosso mundo tornamo-nos importantes, recebemos novos
olhares, as pessoas passam a acreditar que seremos gente.
O problema é que não paramos para
pensar que somos a borboleta saindo do casulo apenas no nosso mundo. Para o
resto do mundo real, e principalmente para os nossos novos superiores, as
borboletas do mundo, não passamos de lagartinhas feias e desengonçadas. E como
eu sei disso? Eu senti isso na pele e há pouquíssimo tempo. No começo desse
mês, minha mãe passou por uma cirurgia vascular nas duas pernas. Para deixar
bem claro, minha mãe realmente me vê como uma borboleta saindo do casulo e não
imagina que outras pessoas me vejam como uma lagartinha. Prosseguindo, como já
havia cursado um semestre de Medicina no campus da UFC de Barbalha, achei que
já tinha maturidade suficiente para aceitar a sugestão da minha mãe e pedir
para acompanhar a cirurgia dela.
Primeiro problema a resolver:
arranjar a autorização pra assistir ao procedimento. Subi junto com minha mãe
para o centro cirúrgico e quando fui barrada na entrada pedi para falar com a
enfermeira chefe. Enquanto ela chegava, tentei ensaiar expressões para falar
com ela. Pensei em fazer uma pose bem séria, para parecer responsável e
experiente. Mas pensei que ela poderia confundir minha seriedade com esnobismo.
Pensei então em parecer gentil e amável, mas ela poderia confundir minha
meiguice com bajulação. E antes que eu decidisse que máscara usaria, uma
“simpática” enfermeira veio me atender.
-O que você deseja?
-Bom dia. Minha mãe acabou de entrar no centro cirúrgico
para ser operada pelo Dr. X. Eu gostaria muito que a senhora perguntasse se o
doutor autoriza que eu acompanhe a cirurgia, pois sou estudante de Medicina.-
eu juro que falei “estudante de Medicina” com a maior humildade possível.
A enfermeira me lançou um olhar
desencorajador e disse:
-Olha, neste hospital temos políticas severas para essa
questão de estudantes acompanharem cirurgias. Basicamente, três pessoas devem
concordar com sua entrada: o médico responsável pelo procedimento, o
anestesista e eu.
-Me informaram que o Dr. X é muito compreensivo e acho que o
anestesista não vai se opor. E quanto a senhora...?
A
enfermeira me olhou com desprezo e lançou a terrível pergunta:
-Em que semestre você está?
Eu
tinha que contar a ela toda a confusão que foi minha vida até chegar aqui para
que ela entendesse porque vou ter que fazer novamente o 1º semestre. Achei
melhor não torrar a paciência dela e disse algo impreciso.
-Vou para o 2º. – “Um dia”, pensei com uma ponta de remorso
pela mentirinha.
-Nããããooo.... Você ainda está muito no início do curso, vai
atrapalhar toda a dinâmica do centro. Deixe para a próxima, certo?
Não,
não tinha nada certo. Pensei, por um instante, em contar como estava ganhando
experiência em cirurgias de ratinhos no laboratório onde matava a ociosidade da
greve (cenas dos próximos capítulos), mas com certeza ela ia levar muito a mal
minha comparação entre o centro cirúrgico do hospital e a bancada da
neuropsicofarmacologia onde eu treinava estereotaxias, operando ratinhos sobre
toalhas de papel. Melhor não usar esse argumento.
-Okay. –Disse tristemente, fazendo uma cara de sofrimento
para ver se a comovia. Nada. Acho até que por dentro ela ria da minha
insignificante posição de aluna do 1º semestre comparada a ela, enfermeira
chefe do centro cirúrgico de um grande hospital.
Desse episódio tirei uma valiosa
lição: Minha mãe, dentro da sala de cirurgia, lamentava que sua genial e
vocacionada filhinha não tivesse conseguido autorização para assistir ao
procedimento, enquanto a enfermeira se congratulava por não ter deixado mais um
estudante inexperiente macular o santuário cirúrgico com sua presença boba e indesejada. Ou
seja: por enquanto, borboletinha só para minha mãe e companhia. Para quem realmente
já alçou vôo na vida, uma lagartinha metida.
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