sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Capítulo 1


Pensei em tantas coisas para escrever nesse primeiro capítulo... Pensei em falar sobre vestibulares, o primeiro ano em outro curso, o semestre que cursei em outra faculdade... Mas na verdade, sinto que o correto é começar a registrar de agora, quando realmente estou no curso e na instituição que sempre sonhei e onde permanecerei pelos próximos seis anos. Então, vamos começar do princípio: Prazer, meu nome é Larissa, tenho 18 anos, curso Medicina na UFC e todas as crônicas daqui são verdadeiras, são minhas aventuras, minhas experiências.
Independente do curso, quando passamos nos vestibulares da vida o céu amanhece mais azul, as rosas mais vermelhas e blá, blá, blá. Toda a família promove você a orgulho, seus amigos comemoram e aquelas pessoinhas que te ignoravam, não davam nada por você ou simplesmente te odiavam, começam a dizer que sempre torceram por sua aprovação. Enfim, eu já passei por isso e você com certeza já passou ou vai passar. O que quero dizer é que no nosso mundo tornamo-nos importantes, recebemos novos olhares, as pessoas passam a acreditar que seremos gente.
O problema é que não paramos para pensar que somos a borboleta saindo do casulo apenas no nosso mundo. Para o resto do mundo real, e principalmente para os nossos novos superiores, as borboletas do mundo, não passamos de lagartinhas feias e desengonçadas. E como eu sei disso? Eu senti isso na pele e há pouquíssimo tempo. No começo desse mês, minha mãe passou por uma cirurgia vascular nas duas pernas. Para deixar bem claro, minha mãe realmente me vê como uma borboleta saindo do casulo e não imagina que outras pessoas me vejam como uma lagartinha. Prosseguindo, como já havia cursado um semestre de Medicina no campus da UFC de Barbalha, achei que já tinha maturidade suficiente para aceitar a sugestão da minha mãe e pedir para acompanhar a cirurgia dela.
Primeiro problema a resolver: arranjar a autorização pra assistir ao procedimento. Subi junto com minha mãe para o centro cirúrgico e quando fui barrada na entrada pedi para falar com a enfermeira chefe. Enquanto ela chegava, tentei ensaiar expressões para falar com ela. Pensei em fazer uma pose bem séria, para parecer responsável e experiente. Mas pensei que ela poderia confundir minha seriedade com esnobismo. Pensei então em parecer gentil e amável, mas ela poderia confundir minha meiguice com bajulação. E antes que eu decidisse que máscara usaria, uma “simpática” enfermeira veio me atender.
-O que você deseja?
-Bom dia. Minha mãe acabou de entrar no centro cirúrgico para ser operada pelo Dr. X. Eu gostaria muito que a senhora perguntasse se o doutor autoriza que eu acompanhe a cirurgia, pois sou estudante de Medicina.- eu juro que falei “estudante de Medicina” com a maior humildade possível.
A enfermeira me lançou um olhar desencorajador e disse:
-Olha, neste hospital temos políticas severas para essa questão de estudantes acompanharem cirurgias. Basicamente, três pessoas devem concordar com sua entrada: o médico responsável pelo procedimento, o anestesista e eu.
-Me informaram que o Dr. X é muito compreensivo e acho que o anestesista não vai se opor. E quanto a senhora...?
                A enfermeira me olhou com desprezo e lançou a terrível pergunta:
-Em que semestre você está?
                Eu tinha que contar a ela toda a confusão que foi minha vida até chegar aqui para que ela entendesse porque vou ter que fazer novamente o 1º semestre. Achei melhor não torrar a paciência dela e disse algo impreciso.
-Vou para o 2º. – “Um dia”, pensei com uma ponta de remorso pela mentirinha.
-Nããããooo.... Você ainda está muito no início do curso, vai atrapalhar toda a dinâmica do centro. Deixe para a próxima, certo?
                Não, não tinha nada certo. Pensei, por um instante, em contar como estava ganhando experiência em cirurgias de ratinhos no laboratório onde matava a ociosidade da greve (cenas dos próximos capítulos), mas com certeza ela ia levar muito a mal minha comparação entre o centro cirúrgico do hospital e a bancada da neuropsicofarmacologia onde eu treinava estereotaxias, operando ratinhos sobre toalhas de papel. Melhor não usar esse argumento.
-Okay. –Disse tristemente, fazendo uma cara de sofrimento para ver se a comovia. Nada. Acho até que por dentro ela ria da minha insignificante posição de aluna do 1º semestre comparada a ela, enfermeira chefe do centro cirúrgico de um grande hospital.
Desse episódio tirei uma valiosa lição: Minha mãe, dentro da sala de cirurgia, lamentava que sua genial e vocacionada filhinha não tivesse conseguido autorização para assistir ao procedimento, enquanto a enfermeira se congratulava por não ter deixado mais um estudante inexperiente macular o santuário cirúrgico com sua presença boba e indesejada. Ou seja: por enquanto, borboletinha só para minha mãe e companhia. Para quem realmente já alçou vôo na vida, uma lagartinha metida.

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