Como eu tenho muita sorte,
comecei a tão sonhada faculdade no meio de uma greve. Já estava há dias imersa
em puro tédio quando um telefonema me salva. Era a Elana, uma amiga desde a 6ª
série, companheira de Farmácia (cursei um ano ainda) e de cursinho, me
convidando para me engajar em um projeto de doutorado do laboratório de
neuropsicofarmacologia. Eu nem perguntei direito o que era, mas topei de cara.
O que me impressionou
profundamente, à primeira vista, foram os ratos brancos utilizados nos
experimentos. Achava eles tão fofos! Sempre tive muito carinho por animais e
meu sonho de criança era ter um hamster, coisa impossível porque minha irmã tem
fobia de roedores e minha mãe simplesmente não os suporta. Então, nos meus
primeiros dias de laboratório, não lidei bem com a questão de sacrificar os
animais depois do experimento. Pra falar a verdade, ainda não lido, sou a favor
da vida. Total. Por isso, salvei um ratinho que já havia passado pelo
experimento e que ia ser sacrificado. Trouxe para casa, tratei o ferimento que
ele tinha na cabeça por causa da cirurgia e lhe pus o nome de Luís Fernando
(Lulu, para os íntimos).
A chegada do Luís aqui em casa não
foi das melhores. Minha irmã começou a chorar e minha mãe a gritar, mas bati o
pé no chão e o ratinho está comigo há mais de um mês. Não posso dizer que minha
vida com Luís Fernando seja perfeita, de vez em quando minha mãe se irrita com
as bagunças dele ou com nossos momentos de intimidade, quando me reporto a ele
com mais carinho. E se eu chamo ele de “meu filho” aí sim que a coisa pega!
Minha irmã já não faz objeções; não posso dizer que ela adora e já brinca com
ele, mas ela não fica reclamando e muito menos chorando.
Fora meus probleminhas domésticos, ainda tenho
de ouvir piadinhas no laboratório. Quando chega um IC (aluno de iniciação
científica) novo, alguém já corre pra contar que eu além de gostar dos ratos
ainda adoto. O Chefinho ( vamos chamá-lo assim, talvez em outros episódios eu
diga o nome dele), sempre fica dizendo, quando precisamos sacrificar animais,
que eu posso levá-los para casa. E quando as fêmeas têm filhotes, como
aconteceu nesses dias? Ele pergunta se não quero ficar com todos! Se eu pudesse, traria mesmo! São
filhotinhos fofos, brancos e gordinhos. Mas antes que vocês achem que eu sou
louca, devo dizer que sei muito bem das conseqüências de iniciar uma fazenda de
ratos. Por isso, não se preocupem, ainda quero continuar morando na minha casa
e preferencialmente em paz com o restante da minha família! E quando for dia de
matança... “Fecho os olhos pra não ver passar o tempo...”
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