sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Capítulo 4 - Parte 2 (Sobre platonismo)

            Só existe uma coisa pior que encontrar  sua ex-paixão platônica desfilando na faculdade: ter amigos que enchem sua paciência por causa disso. E não adianta dizer que não tem nada a ver, eles ficam te acusando de estar vermelha, ou de chegar "feliz demais" no laboratório. Mas a minha sorte é tamanha que depois de séculos sem ver Platão, ele me aparece no meu primeiro dia de estágio. E continua aparecendo vez ou outra, e eu nem posso comentar com ninguém para depois não dizerem que eu ainda estou apaixonada.
          Já falei inúmeras vezes que meu tratamento de desapaixonamento foi eficaz, mas querem sempre encontrar sinais em mim de encantamento. Pois vacilaram, bando de amigos da onça: Platão pertence ao meu ingênuo passado, estou agora total e somente comprometida com a ciência! Hahahahahha ;D

Capítulo 4 - Parte 1 (Sobre dizer "não")

          Dizer não é extremamente difícil para mim, mas tenho me forçado a fazer isso nos últimos dias. Já passei por maus bocados, já deixei de fazer o que queria para agradar algumas pessoas. E porque estou falando isso? Poque hoje, pela primeira vez, disse não ao Chefinho.E olha que já fiz muitas coisas quase impossíveis para não queimar meu filme!
           Hoje, comentando isso com o pessoal, uma amiga riu lembrando do dia em que enfrentei um enxame de abelhas para procurar um rato pro Chefinho operar. Foi assim: Ele pediu para procurarmos um animal mais gordinho no departamento de Fisiologia, mas quando eu e essa amiga chegamos, o corredor que dava acesso à sala estava interditado de abelhas. Como essa amiga, a Natassya, tem pavor de insetos (pelo menos foi o que entendi da situação), ela recusou-se terminantemente a cruzar o caminho do enxame. Realmente eram muitas, mas eu não sabia o que seria pior: a fúria das abelhas ou a chateação do Chefinho por não termos ido buscar o rato.
         Entre a cruz e a espada, com a Natassya praticamente me arrastando de lá, bati na porta de um outro laboratório para perguntar se tinha outro acesso, uma porta ou sei lá, mas não havia. A professora que me atendeu deu a dica, se realmente fosse necessário passar, que fizéssemos o mínimo de movimento possível. Era mesmo necessário, então fiz do meu jaleco uma capa e atravessei em câmera lenta. Momentos de tensão, mas consegui pegar um animal e chegar sã e salva ao nosso laboratório. E o que você acha que  ganhei por esse ato de dedicação e coragem? Uma salva de palmas? Congratulações pelo meu heroísmo? Bem, confesso que no tal dia não ganhei nada, mas hoje ganho muitas gargalhadas e consigo divertir meus colegas.
         Mesmo depois disso, hoje fiquei pensando seriamente antes de negar um pedido do Chefinho. Já havíamos combinado que iríamos fazer um mutirão de estereotaxias no domingo e ele, com seu sotaquezinho cativante e fala cantada, pediu, com toda sua simpatia caririense, para fazermos isso no sábado. O problema é que todos já haviam marcado compromissos no sábado (e eu, como filha de Deus também, marquei um clubezinho), mas ainda fiquei zonza tendo de fazer minha escolha. A decisão veio quando Natassya começou a contar e rir do caso das abelhas. Nem pensei mais, bati o martelo: Sábado não venho! Liguei para o Chefe e disse o que havíamos decidido, ficaria tudo como antes. Que alívio me permitir dizer um não. Estou aprendendo...

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Capítulo 3

               Ontem fiquei sabendo de uma novidade não muito agradável: Vou voltar a estudar toda madrugada. Assim que a greve acabar e as aulas começarem minha nova rotina será bem parecida com a de antigamente. Em 2010 era assim: Aulas do 3º ano (manhã) + Aulas Específicas (Tarde) + Cursinho (Noite) + Estudos individuais (Madrugada, feriados e fins de semana). Em 2011 ficou assim: Curso de Farmácia (Manhã e Tarde) + Estágo em laboratório (Turnos livres) + Cursinho (Noite) + Estudos individuais (Madrugada, feriados e fins de semana).
               Esse ano tinha ficado assim: Curso de Medicina (Manhã e Tarde) + Atividades extraclasse (Turnos livres) + Estudos individuais (Noite, eventualmente fins de semana e feriados) + Lazer e Sono (Madrugada, feriados e fins de semana). Estava perfeito! Mas depois da reunião de ontem, em que reorganizamos os novos horários para os experimentos do doutorado do Chefinho, parei para montar os meus horários e ficou assim: Curso de Medicina (Manhã e Tarde) + Atividades extraclasse (Turnos livres) + Estágio no laboratório (Noite, sim noite, acredite!) + Estudos Individuais e construção de um artigo sobre EEG (Madrugada, feriados e fins de semana).
                Depois desse horário maravilhoso, você deve concordar com uma amiga do laboratório: Não somos ICs, somos ECs - ESCRAVOS CIENTÍFICOS! Eu só queria aprveitar meu tempo da forma mais produtiva possível, mas pelo visto estou aproveitando de forma impossível.  Será que um dia todos os ECs serão ricos o suficiente para compensar nossa privação de sono e de lazer? Quem sabe, né? Enquanto nossa fama e glória não chega é só "Lêrê-Lêrê-Lêrê-Lêrê-Lêrê..."
                Hum... Acabo de lembrar de uma coisinha das minhas aulinhas de História. Lembram como se chamava o expansionismo das viagens marítimas sobre as Américas? Colonialismo - Busca de metal e especiarias. Qual a desculpa? Expandir a fé católica. Lembram como se chamava o expansionismo sobre África e Ásia alguns anos depois? Neocolonalismo - Busca de novos mercados consumidores e mão-de-obra barata. Qual a desculpa? Levar a civilização e o progresso, o "fardo do homem branco". Então agora surge o Colonialismo Científico - Arrebanhamento de ECs e exploração de trabalho inocente. E a desculpa? Promessas de publicações, experiências lindas e pós-graduação. Fazer o que? Tudo em nome da Ciência! E para ser franca, acho que acabamos nos viciando (ou gostando) nessa vida. Dá a sensação de sermos úteis e participantes de um algo maior, de uma missão.
                   Olha só o meu discurso de IC (ou EC, sei lá...)! Não é que ficou bonitinho?

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Capítulo 2


Como eu tenho muita sorte, comecei a tão sonhada faculdade no meio de uma greve. Já estava há dias imersa em puro tédio quando um telefonema me salva. Era a Elana, uma amiga desde a 6ª série, companheira de Farmácia (cursei um ano ainda) e de cursinho, me convidando para me engajar em um projeto de doutorado do laboratório de neuropsicofarmacologia. Eu nem perguntei direito o que era, mas topei de cara.
O que me impressionou profundamente, à primeira vista, foram os ratos brancos utilizados nos experimentos. Achava eles tão fofos! Sempre tive muito carinho por animais e meu sonho de criança era ter um hamster, coisa impossível porque minha irmã tem fobia de roedores e minha mãe simplesmente não os suporta. Então, nos meus primeiros dias de laboratório, não lidei bem com a questão de sacrificar os animais depois do experimento. Pra falar a verdade, ainda não lido, sou a favor da vida. Total. Por isso, salvei um ratinho que já havia passado pelo experimento e que ia ser sacrificado. Trouxe para casa, tratei o ferimento que ele tinha na cabeça por causa da cirurgia e lhe pus o nome de Luís Fernando (Lulu, para os íntimos).
A chegada do Luís aqui em casa não foi das melhores. Minha irmã começou a chorar e minha mãe a gritar, mas bati o pé no chão e o ratinho está comigo há mais de um mês. Não posso dizer que minha vida com Luís Fernando seja perfeita, de vez em quando minha mãe se irrita com as bagunças dele ou com nossos momentos de intimidade, quando me reporto a ele com mais carinho. E se eu chamo ele de “meu filho” aí sim que a coisa pega! Minha irmã já não faz objeções; não posso dizer que ela adora e já brinca com ele, mas ela não fica reclamando e muito menos chorando.
 Fora meus probleminhas domésticos, ainda tenho de ouvir piadinhas no laboratório. Quando chega um IC (aluno de iniciação científica) novo, alguém já corre pra contar que eu além de gostar dos ratos ainda adoto. O Chefinho ( vamos chamá-lo assim, talvez em outros episódios eu diga o nome dele), sempre fica dizendo, quando precisamos sacrificar animais, que eu posso levá-los para casa. E quando as fêmeas têm filhotes, como aconteceu nesses dias? Ele pergunta se não quero ficar com todos! Se eu pudesse, traria mesmo! São filhotinhos fofos, brancos e gordinhos. Mas antes que vocês achem que eu sou louca, devo dizer que sei muito bem das conseqüências de iniciar uma fazenda de ratos. Por isso, não se preocupem, ainda quero continuar morando na minha casa e preferencialmente em paz com o restante da minha família! E quando for dia de matança... “Fecho os olhos pra não ver passar o tempo...”

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Capítulo 1


Pensei em tantas coisas para escrever nesse primeiro capítulo... Pensei em falar sobre vestibulares, o primeiro ano em outro curso, o semestre que cursei em outra faculdade... Mas na verdade, sinto que o correto é começar a registrar de agora, quando realmente estou no curso e na instituição que sempre sonhei e onde permanecerei pelos próximos seis anos. Então, vamos começar do princípio: Prazer, meu nome é Larissa, tenho 18 anos, curso Medicina na UFC e todas as crônicas daqui são verdadeiras, são minhas aventuras, minhas experiências.
Independente do curso, quando passamos nos vestibulares da vida o céu amanhece mais azul, as rosas mais vermelhas e blá, blá, blá. Toda a família promove você a orgulho, seus amigos comemoram e aquelas pessoinhas que te ignoravam, não davam nada por você ou simplesmente te odiavam, começam a dizer que sempre torceram por sua aprovação. Enfim, eu já passei por isso e você com certeza já passou ou vai passar. O que quero dizer é que no nosso mundo tornamo-nos importantes, recebemos novos olhares, as pessoas passam a acreditar que seremos gente.
O problema é que não paramos para pensar que somos a borboleta saindo do casulo apenas no nosso mundo. Para o resto do mundo real, e principalmente para os nossos novos superiores, as borboletas do mundo, não passamos de lagartinhas feias e desengonçadas. E como eu sei disso? Eu senti isso na pele e há pouquíssimo tempo. No começo desse mês, minha mãe passou por uma cirurgia vascular nas duas pernas. Para deixar bem claro, minha mãe realmente me vê como uma borboleta saindo do casulo e não imagina que outras pessoas me vejam como uma lagartinha. Prosseguindo, como já havia cursado um semestre de Medicina no campus da UFC de Barbalha, achei que já tinha maturidade suficiente para aceitar a sugestão da minha mãe e pedir para acompanhar a cirurgia dela.
Primeiro problema a resolver: arranjar a autorização pra assistir ao procedimento. Subi junto com minha mãe para o centro cirúrgico e quando fui barrada na entrada pedi para falar com a enfermeira chefe. Enquanto ela chegava, tentei ensaiar expressões para falar com ela. Pensei em fazer uma pose bem séria, para parecer responsável e experiente. Mas pensei que ela poderia confundir minha seriedade com esnobismo. Pensei então em parecer gentil e amável, mas ela poderia confundir minha meiguice com bajulação. E antes que eu decidisse que máscara usaria, uma “simpática” enfermeira veio me atender.
-O que você deseja?
-Bom dia. Minha mãe acabou de entrar no centro cirúrgico para ser operada pelo Dr. X. Eu gostaria muito que a senhora perguntasse se o doutor autoriza que eu acompanhe a cirurgia, pois sou estudante de Medicina.- eu juro que falei “estudante de Medicina” com a maior humildade possível.
A enfermeira me lançou um olhar desencorajador e disse:
-Olha, neste hospital temos políticas severas para essa questão de estudantes acompanharem cirurgias. Basicamente, três pessoas devem concordar com sua entrada: o médico responsável pelo procedimento, o anestesista e eu.
-Me informaram que o Dr. X é muito compreensivo e acho que o anestesista não vai se opor. E quanto a senhora...?
                A enfermeira me olhou com desprezo e lançou a terrível pergunta:
-Em que semestre você está?
                Eu tinha que contar a ela toda a confusão que foi minha vida até chegar aqui para que ela entendesse porque vou ter que fazer novamente o 1º semestre. Achei melhor não torrar a paciência dela e disse algo impreciso.
-Vou para o 2º. – “Um dia”, pensei com uma ponta de remorso pela mentirinha.
-Nããããooo.... Você ainda está muito no início do curso, vai atrapalhar toda a dinâmica do centro. Deixe para a próxima, certo?
                Não, não tinha nada certo. Pensei, por um instante, em contar como estava ganhando experiência em cirurgias de ratinhos no laboratório onde matava a ociosidade da greve (cenas dos próximos capítulos), mas com certeza ela ia levar muito a mal minha comparação entre o centro cirúrgico do hospital e a bancada da neuropsicofarmacologia onde eu treinava estereotaxias, operando ratinhos sobre toalhas de papel. Melhor não usar esse argumento.
-Okay. –Disse tristemente, fazendo uma cara de sofrimento para ver se a comovia. Nada. Acho até que por dentro ela ria da minha insignificante posição de aluna do 1º semestre comparada a ela, enfermeira chefe do centro cirúrgico de um grande hospital.
Desse episódio tirei uma valiosa lição: Minha mãe, dentro da sala de cirurgia, lamentava que sua genial e vocacionada filhinha não tivesse conseguido autorização para assistir ao procedimento, enquanto a enfermeira se congratulava por não ter deixado mais um estudante inexperiente macular o santuário cirúrgico com sua presença boba e indesejada. Ou seja: por enquanto, borboletinha só para minha mãe e companhia. Para quem realmente já alçou vôo na vida, uma lagartinha metida.