- Eu tou doente! Eu vou morrer, tu não entendeu ainda?
Essa foi a frase que me pegou ontem, de manhã, na calçada do hospital universitário. Uma mulher desvairada gritava isso para uma outra mulher, provavelmente sua parente que acompanhava a consulta. A frase ecoou na minha cabeça o resto do dia e eu me pergunto se algum dia vou aprender a lidar com isso. Ou será que a faculdade irá me enrijecer e daqui a alguns anos nem vou me importar com esse tipo de situação? Espero que não, pois mesmo sentindo o coração dilacerado diante de uma cena dessas, ainda é preferível essa minha pequena dor à imensa angústia de um paciente que ouve alguém frio e inerte dizer que não há mais jeito.
Mas não desejar tornar-me fria é aceitar um martírio que me seguirá durante toda a vida? Preciso mesmo desse escudo para exercer a profissão que escolhi? Penso que o pior martírio é ser vazio e incapaz de transmitir qualquer coisa de bom a alguém. De forma alguma quero abraçar e chorar com um paciente para lamentar seu estado, mas desejo tornar-me uma fonte de segurança e serenidade, para que ele saiba que farei tudo que estiver ao meu alcance para ajudá-lo.
Então o grande desafio é aprender a administrar as emoções sem perder a sensibilidade. Parece que achei o ponto, mas quanta dificuldade há nisso! Entretanto, acredito que registrando isso e internalizando a cada dia, talvez fique muito mais difícil esquecer a missão. Afinal, é possível sim fazer a diferença e tornar o seu mundo um lugar melhor para viver. Cada pessoa tem o seu propósito de vida e de alguma forma incrível nos encaixamos em diferentes lugares, então aquela velha história de "faça a sua parte" continua valendo. E se a minha parte, enquanto estudante, é preparar-me intelectualmente e psicologicamente para ajudar pessoas, é isso o que eu vou fazer.
"Um amigo chamou-me para aliviar sua dor. Guardei a minha no bolso e fui."
Clarice Lispector
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